Invadido, espaço administrativo vira ''Crusp clandestino''

Estadão
20/03/2010, 00:00

Invadido, espaço administrativo vira ''Crusp clandestino''

Estudantes ocupam posto de assistência social há um ano; reitoria faz acusações de vandalismo

Felipe Mortara — O Estado de S.Paulo

A decisão da reitoria da USP de transferir departamentos administrativos para fora do câmpus está sendo muito bem recebida por pelo menos um grupo de estudantes. Com balões coloridos amarrados em barbantes que cruzavam a sala de estar, eles se preparavam para comemorar, na noite de anteontem, um ano de ocupação de uma área administrativa da Coordenadoria de Assistência Social (Coseas), no Conjunto Residencial da USP (Crusp), na Cidade Universitária.

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Balões coloridos foram colocados como enfeite para marcar aniversário de ocupação (Andre Lessa/AE)

O local, que até meados dos anos 1980 foi utilizado como habitação estudantil — daí a justificativa para o nome, Moradia Retomada —, transformou-se nos últimos meses numa espécie de Crusp clandestino. São seis banheiros e dois chuveiros para 43 alunos espalhados em três andares, instalados em 18 salas transformadas em quartos. Há uma cozinha coletiva, com fogão industrial de quatro bocas e uma cafeteira de pano, herdada das funcionárias da Coseas que ali trabalhavam.

Como 13 pessoas envolvidas na ação sofrem processo administrativo, os moradores optaram por usar nomes fictícios nesta reportagem. A USP alega que foram extraviados computadores, eletrodomésticos e cerca de mil documentos de registro sobre os moradores do Crusp. Já os alunos afirmam que devolveram a totalidade dos papéis e dos equipamentos, à exceção dos artigos de cozinha.

Os estudantes, que se dividem em dois ou três por quarto, dizem que convivem com tranquilidade, distribuindo tarefas para deixar o local limpo. "Temos assembleias semanais, nas quais são votadas democraticamente todas as questões da moradia", conta Lola, de 21 anos, aluna de Artes Cênicas, que vive ali desde o primeiro dia.

Discussões sobre a dinâmica coletiva são as preferidas. Há cinco comissões com temas definidos. "Temos responsáveis pela limpeza, recepção de novos moradores, caixa e zeladoria, cultura e culinária", conta Isadora, de 19 anos, caloura de Letras.

Pedidos negados. Os ocupantes dizem que suas demandas por vagas oficiais no Crusp não foram atendidas. Por isso decidiram, em assembleia com cerca de 150 residentes do conjunto, retomar o espaço. Desde 18 de março do ano passado, mais de 200 estudantes passaram pelo alojamento coletivo, no bloco G das moradias.

"Eu me sentia injustiçada pelo sistema, pois estava começando meu terceiro ano e não tinha conseguido um quarto oficialmente", conta Ana, de 23 anos, também aluna de Cênicas. A instituição disse que anualmente são oferecidas 150 vagas para calouros da graduação e outras 100 para mestrandos e doutorandos. Neste ano, a Fuvest aprovou 10.552 alunos em primeira chamada para a USP.

Por meio de sua assessoria, a universidade reconheceu que o número de vagas oferecido a cada ano é inferior à demanda por parte dos alunos e anunciou a inauguração de um novo prédio em maio, com capacidade para mais 210 discentes.

Com a chegada dos calouros, a Moradia Retomada passou a recrutar novos membros, criando um sistema paralelo de acolhimento. "Demorou muito tempo até a Coseas arrumar um lugar para mim, e acabei ficando alguns dias por aqui", conta Ivan, de 19 anos, recém-chegado do interior e aluno de História.

Vagas
A Coordenadoria de Assistência Social diz que, no total, há cerca de 1,3 mil vagas de moradia — 800 para alunos graduação e 400 para pós. Em maio, haverá mais 210 vagas à disposição.

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