Protesto silencioso marca uma semana da morte de estudante na USP

UOL Notícias
09/12/2010, 14:24

Protesto silencioso marca uma semana da morte de estudante na USP

Maurício Savarese
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Cerca de 50 pessoas se reuniram nesta quinta-feira (9) na Praça do Relógio Solar, na USP (Universidade de São Paulo), para lembrar a morte do estudante de filosofia Samuel de Souza, 42. Colegas, funcionários e professores viram indícios de omissão de socorro no caso, que levou a reitoria a abrir sindicância e a Polícia Civil a instaurar um inquérito para apurar responsabilidades.

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Flores foram levadas até a árvore onde Samuel se encostou por volta das 10h da quinta-feira da semana passada. Ele morreu ali, depois de seu estado ser avaliado pela Guarda Universitária. Estudantes dizem que solicitaram uma ambulância ao Hospital Universitário e que o pedido foi negado, já que o atendimento só é oferecido a quem é transportado até as instalações médicas. As ambulâncias do HU se limitam a fazer transferência para outro hospital.

Colegas fizeram orações e foi guardado um minuto de silêncio, por volta das 11h30. Alguns se frustraram com o número de pessoas presentes – resultado, dizem, do acelerado período de entrega de trabalhos e de provas de fim de ano. Nenhum parente do estudante, enterrado em Juazeiro, na Bahia, compareceu. O aluno tomava medicamentos pesados, mas a causa da morte ainda não foi determinada pelo IML (Instituto Médico Legal).

Um dos incentivadores do protesto, o professor titular de Literatura Espanhola Mário Gonzáles afirmou que a morte de Samuel “é em uma configuração inédita e é uma vergonha para a nossa universidade”. Há cerca de 40 anos na USP, ele avalia que “é impossível não desconfiar de omissão de socorro” por conta das circunstâncias do incidente. “Nunca vi algo assim. E viemos aqui para que isso não se repita”, disse.

Amiga de Samuel, a fotógrafa Rosana Bullara acredita que a Guarda Universitária não soube avaliar o risco que o estudante corria. “Ele chegou de ônibus já passando mal. A Guarda ofereceu ajuda, mas ele recusou. Pouco depois, já na praça, os guardas devem ter minimizado”, afirmou. “Para algumas dessas pessoas, o Samuel parecia um mendigo, por causa da aparência. Se fosse outra pessoa, talvez fosse diferente.”

“Morte e vida uspiana”

Entre os colegas, funcionários e professores presentes, não faltou panfletagem. Houve quem aproveitasse a ocasião para distribuir convites para um protesto contra a prisão do fundador da Wikileaks, Julian Assange. Outros pediam articulação na universidade para minimizar falhas de estrutura e problemas burocráticos que podem ter levado à morte de Samuel, que estava no fim do curso de Filosofia na universidade.

Outra mesa na USP, com o título “Morte e vida uspiana”, prometia debater mais tarde nesta quinta-feira o modelo de gestão da universidade “a propósito do falecimento do estudante Samuel de Souza”. “Esse incidente vai estimular uma conversa maior entre funcionários, estudantes e professores”, afirmou Claudionor Brandão, diretor do Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP).

Uma professora, que preferiu não ter o nome citado, afirmou que essa aproximação será decisiva para cobrar mudanças no tratamento a quem frequenta a USP. “O que fizeram a Guarda Universitária e o Hospital Universitário são um símbolo de como decisões burocráticas podem tirar a vida de uma pessoa. A reitoria terá de explicar por que Samuel não foi atendido e por que um guarda teve o poder de decretá-lo morto.”

A USP abriu uma sindicância para apurar a morte de Samuel, mas Brandão, do Sintusp, acha mais provável que a investigação da Polícia Civil traga resultados mais importantes. “A crença das pessoas não é de que a USP conseguirá esclarecer um episódio de morte pelo qual pode ser responsável”, afirmou.

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