"Pensávamos que íamos exportar a revolução"

Depoente: Cesáreo Raimúndez Álvarez
Fonte: Blog "Outra Esquerda"
Descrição: Depoimento do ex-morador do CRUSP Cesáreo Raimúndez Álvarez, professor da Universidade de Vigo. O texto está em galego.

"Pensávamos que íamos exportar a revolução"

uma conversa com Cesáreo Raimúndez Álvarez

Conhecim o Cesáreo na universidade de Vigo. Fum primeiro aluno seu, despois companheiro de trabalho, e agora amigo. Home de variados interesses e amplos conhecementos, falar com el adoita ser um prazer - tanto tem que seja sobre micologia, literatura, engenharia, música ou socialismo. Especialmente relacionadas com os temas deste blogue são as experiências que lhe tocou viver no convulso Brasil dos anos '60, onde foi trabalhador, debuxante de comics, estudante universitário e militante revolucionário (às vezes ao mesmo tempo). O ano passado, durante uma viagem a um congresso em Valladolid, tivemos ocasião de conversar demoradamente sobre essa época, aquel momento a finais dos '60 em que a revolução semelhava iminente, e um futuro de paz, amor e tropicalismo se albiscava à volta da esquina. Infelizmente, o que havia de vir era bem diferente, e a resposta da ditadura (involução, repressão, torturas) encargou-se de borrar aqueles sonhos por décadas. A seguir, a conversa:

[outraesquerda] – Ti sempre dis que és de Teis, não é?

[Cesáreo] – Em Teis nascim, numa variante de Teis conhecida como Arnela — que é um termo bastante frequente na Galiza. Está perto do mar, a poucas dezenas de metros, perto de uma igreja; eu criei-me alá.

– A tua família era de ali?

– Si. Fala-se de que o pai de meu pai veu de Leão para alá… o apelido seu, Raimúndez, é tão frequente em Ponte Vedra como em Leão.

– A Vigo foram moitos leoneses…

– Si. Agora, de parte de minha nai, si, somos de alá.

– E despois fuches para o Brasil a mediados dos '50…

– Eu cheguei a Brasil no '56. Fum como reclamado dum imigrante: meu pai foi primeiro, e 4 anos despois reclamou-nos. Fomos num barco que era o “Highland Chieftain”, das Royal Lines, que aqui chamavam Mala Real Inglesa, e pensava-se que era uma cousa “mala” [risas]. Fum até alá numa viagem que demorou uns 11 dias; para um rapaz que tinha 10 ou 11 anos aquilo foi uma epopeia. A passagem do Equador, as festas que faziam para a ocasião, os bailes… o feito de ver a primeira sessão de cine ao céu aberto. Enfim, eramos imigrantes, mas os ingleses em certa forma cuidavam bem de nós. Lembro-me da comida, foi a primeira vez que entrei em contacto com o de comer um pouquerrechinho de manteiga no pão antes de comer… que é um costume que os portugueses adotárom dos ingleses. E assim… 11 dias despois estava alá, em Santos, que é uma ilha… bom, está conectada praticamente ao continente i é uma terra que no Brasil tem muita significação, é a terra de Brás Cubas, um dos pioneiros em colonizar o Brasil. Quando fomos para alá chegamos de noite. Lembro-me ainda de aquela calor, de aquel ambiente que se respirava.

– Quando chegaches ao Brasil, o tema da língua, por exemplo, como o levaches?

– Home, eu entendia o galego, e entendia português mais ou menos. Porque uma cousa é o galego e outra o português do Brasil falado… que em certa forma o português do Brasil entende-se melhor que o português de Portugal, porque tem uma fonética mais afim. Então não me foi difícil. Mas por exemplo, os primeiros dias eu aparte de “ir embora” dizia também “ficar embora”… até que me corrigim. Foi relativamente fácil.

– Porque em Teis falavas galego ou castelão?

– Eu entendia o galego pero não mo falavam. No âmbito familiar falavam-me galego, pero eu falava castelão porque não me deixavam praticamente falar galego. Isso devido a que, como eu estava sendo escolarizado, na escola na que eu estava, que era uma escola de monjas, não permitiam falar galego. Se falavas davam-che um cachete. Então, tododios falava comigo em galego pero não queriam que eu o falara. Ainda que de vez em quando soltava algo, era inevitável. Agora, o problema de falar uma língua… uma cousa que logo tive intenção foi de ser tomado por um nativo. Comecei a falar português revisando a fonética do que falava, e uns 4 ou 5 anos despois si que realmente conseguim expressar-me como um nativo. É uma língua preciosa, e tem uma literatura fantástica. O que é curioso é que despois, quando figem o equivalente ao bacharelato, tive contacto com as cantigas de amigo, as de Meendinho, Martin Códax…

– E fazia-se referência a a elas como galegas?

– Galaico-portuguesas. E resulta que Meendinho supõe-se que foi geograficamente o meu vizinho. Porque alá, em Arnela, hai um lugar que se chama Mende, mais ou menos por onde Pescanova. E supõe-se que Meendinho levou o nome de ali.

– Estando tão ao tanto da literatura, da arte e demais, como é que despois optaches por uma carreira técnica?

– Isso porque quando chegas como imigrante, a tua preocupação é sobreviver, não? E se é possível superar a condição na que chegaches; creo que isso é comum a todos os imigrantes. Então, que passa? A mim sempre me gustou o debuxo, e colhérom-me como aprendiz de debuxo. Meu pai tinha uns contatos numa empresa siderúrgica, que estava no início, então entrei de aprendiz ali. Comecei como debuxante, de oficinista, e acabei fazendo desenho gráfico no departamento de engenharia, com gente de engenharia (…) Isso entusiasmou-me pola engenharia e puxem-me a estudar as oposições [para entrar na carreira], por duas razões: uma, por progredir, e despois por outra inquietude: que nunca me gustou ser mandado, ter alguém por riba.

– Então, rematache o bacharelato, logo puxeches-te a trabalhar…

– Não, ao mesmo tempo. Eu trabalhava, e estudava pola noite. Levantava-me às 6:30 da manhã, chegava ás 7:30 ao local de trabalho, e no trem ia lendo apuntes. À volta, o mesmo. E à noite. (…) Eu não podia ir às academias preparatórias, isso era moi caro e eu era um operário. Então, tive que fazê-lo por conta própria. E afinal entrei nas duas melhores escolas do Brasil, simultaneamente! Uma foi a Politécnica, que era pública, e o outro era o ITA, Instituto Tecnológico de Aeronáutica, uma escola militar.

– Fuche admitido nas duas?

– Nas duas. No ITA, como não me presentei, chegárom a buscar-me com anúncios de televisão. Eu não tinha nem ideia, dixérom-mo despois. Porque era mui selecionado, para o Brasil inteiro eram 27 praças. E por que não me presentei? Porque na época era só para brasileiros, era uma escola militar de aeronáutica e tinhas que ser brasileiro.

– Então, por que figeches o exame se despois não podias entrar?

– Porque quigem, por ver. Como era praticamente o mesmo dia… e como me aceitárom na Politécnica, também… a politécnica era fantástica! Era uma escola nova, recém feita, com moitos meios, feita nos moldes da politécnica da Sorbona. Naquela época estavam construindo o campus universitário da Universidade de São Paulo (USP), que agora é uma verdadeira cidade. Eu fum dos que estrenárom as novas faculdades. Havia dinheiro naquela época, o Brasil estava com as arcas cheas, saia duma 2ª guerra mundial como exportador de café num mercado totalmente beneficioso, e meteu muito dinheiro na universidade. Contratou professores de fora, havia professores americanos. Enfim, uma escola fantástica.

– Então, ti quando es admitido ali…

– Tive que deixar de trabalhar, a primeira cousa.

– E ti, desde o começo matriculas-te em Teleco, ou é ao estilo americano, no que vas cubrindo assignaturas e despois dum tempo escolhes em que te graduas?

– Estilo americano: ti tes 2 anos; despois, a depender das tuas notas, podes escolher: Elétrica, Mecânica, Produção, etc. E com 2 suspensas ias fora. A minha sorte foi que era uma universidade pública, gratis totalmente.

– E o alojamento?

– Gratis. Havia umas instalações…! Porque houvo umas expectativas na época de receber uns jogos panamericanos, e foi construido um complexo residencial e umas áreas de lazer, campo de futebol e essas cousas… afinal não se celebrárom os jogos pan-americanos, e então invadimos aquilo.

– O famoso CRUSP, não? [NOTA: Complexo Residencial Universitário de São Paulo. Hai diversas páginas web dedicadas à sua memória. Pode-se consultar por exemplo esta com documentos da época sobre a tomada dos blocos residenciais polos estudantes. Ou por exemplo esta série de portadas da revista "Vanguarda", editada nos '60 polos estudantes do CRUSP]

– Si. Então, os primeiros estudantes que chegárom tomárom aquilo.

– Isso era a finais dos '60? Ou antes?

– Eu acabei no '69, e são 5 anos. Era no '64 (…)

– Quando falas de que os estudantes tomaram os prédios, isso foi algo espontâneo, autogerido…?

– Isso foi anterior a que eu entrasse alá, não saberia dizer-che. Havia um movimento político já, suponho que foi organizado.
– Quero dizer, não era algo oficial.

– Eu não sei de certo — teria que vê-lo — se esse movimento foi visto com bons olhos pola universidade. Porque ela ganhava também aqueles edifícios, que foram construídos com outro fim. Aquilo (o CRUSP) deveu durar uns 6 anos. Sobreviveu à invasão do exército, que foi a finais do '68, antes das navidades. Posteriormente, si, continuou gente vivendo ali, mas já moi vigilada. Aquilo foi destinado a alojamento de bolsistas, estudantes de fora.

– Quando a invasão do campus polo exército, entraram com tanques e todo, não?

– Si, claro. Entrárom com todo. Disparando não, mas havia grupos paramilitares… um chamava-se CCC, Comando de Caça aos Comunistas. Era um movimento de direitas, associado a ideologias católicas de ultra-direita, que sempre estão juntos.

– Era integrado por universitários?

– Si, em geral por “señoritos”. Havia uma faculdade ali que se chamava Mackenzie, estava ao lado da faculdade de Filosofia, que lhe chamavam Maria Antônia. Pois bem, essa Mackenzie era “facha”, e eles fomentavam grupos de estrema direita. Havia sempre loita entre a Mackenzie e a de Filosofia. Esses movimentos de direita eram fomentados e apoiados polos militares, inclusive com armamento. Chegárom, em vésperas da invasão, a passar em coches por diante dos alojamento e dar ráfagas de tiros. Não sei como não matárom ninguém, porque os edifícios tinham paredes que as balas podiam atravessar.

[NOTA: aqui corta-se a fita com a gravação. A conversa continuava falando das diversas facões estudantis, tanto de direita como de esquerda; o Cesáreo militava daquela na esquerda ortodoxa, marxista-leninista. O CRUSP era terreno amistoso para os activistas, onde o exército rara vez se atrevia a entrar… e quando o fazia às vezes era repelido. Acerca disto, um relatório da policia militar da época (disponível hoje como e-book em pdf) fala de "uma comunidade estudantil de mais de 1.400 pessoas, comunidade que se marginalizou às leis do país constituindo-se em um «ghetto», onde foi destruído totalmente qualquer resquício de princípio de autoridade". Que enveja ter vivido alá! ;-) Mas finalmente produz-se a invasão do CRUSP polo exército em Dezembro de 1968 e o Cesáreo, junto com outros muitos estudantes, é capturado. Será internado durante meses sem nenguma garantia legal, sem contato com o exterior e sem que a sua família soubesse del. Nos interrogatórios fazia-se uso da tortura, ainda que el tivo relativamente sorte: não lhe aplicárom eletricidade, nem lhe quedárom sequelas dos maus tratos. Outros não tiveram tanta sorte, algum foi castrado, outros morrérom…]

– Usavam dinamos para teléfonos de campanha (…) Dínamos que geram corrente (…) usava-nos para dar choques de corrente elétrica. Nada que aparecesse, entendes?

– Não deixavam marcas…

– Claro. Inclusive provocárom a morte de um boliviano, apelidado Carrasco. Porque naquela época o Che estava em auge, e polo feito de haver bolivianos alá o exército era tão obtuso que prendeu esses rapazes — que polo geral de direitas não eram, pero também não eram revolucionários. Eram dous irmãos, e um era hemofílico. El avisou de que era hemofílico, pero torturárom-no também e morreu pelas hemorrágias que lhe provocárom. Foi um dos mártires. Foi um movimento golpista, militar, e aí não hai razão. Uma falta de horizontes e uma censura terrível. O exército para mim é uma das cousas mais tontas que existem… sabes que a inteligência mide-se em tares, não? Hai o megatar, o tar e o militar; de aí já podes concluir. E bom, colhiam livros de bombas hidráulicas pensando que eram bombas explosivas… uma das cousas que figérom foi ver todas as publicações que havia, todo, todo, todo, colectárom a literatura subversiva… Havia livros de Marx, Lenin, Ho Chi Minh, Che Guevara, o francês esse que entrevistou o Che e publicou despois um tratado sobre as guerrillas… como se chamava? Regis Debray, esse tivo moito êxito. Daquela época era também Daniel Cohn-Bendit… e bom, o livro vermelho, por suposto, traído diretamente da China.

– Escrito em português, claro.

– Claro, claro.

– Os chineses publicava-nos em todas as línguas…

– Si, o livro vermelho de Mao… o capitalismo era um tigre de papel [risas]. E bom, pois esse era o contexto. E quando a invasão eu fum capturado, e colegas meus foram mortos, outros foram intercambiados por embaixadores americanos que foram capturados…

– O movimento revolucionário chegara a capturar embaixadores americanos?

– Si, e despois figérom uma troca de presos. Um colega meu de piso foi intercambiado e foi para Chile. A outro chamado Nílsson Cardoso não o capturárom, saiu antes e foi parar na RDA. Formou-se alá em engenharia química e hoje é diretor… não sei se já se retirou, pero antes era diretor da escola de engenharia química de São Carlos, na USP. Nesse movimento, por exemplo, havia espanhois… os irmãos Beloki, filhos de vascos… japoneses, havia de todo. Enfim, o movimento era bastante eclético. Meu nome de guerra era japonês, Aka Ochi, “estrela vermelha”.

– E a policia e o exército deviam de ter informadores…

– Si, tinham, tinham. Pero sabíamos quem eram. Chegamos a colher um uma vez, demos-lhe uma boa somanta. Figemos uma cousa que eles não figérom com nós… Colhemo-lo, íamos todos com passamontanhas, e figemos-lhe uma sessão de afogamento. Pugemos-lhe uma almofada na cabeça e botamos auga… e cantou todo o que tinha que cantar!

– Disseras-me que teu pai figera alguma gestão para conseguir que te soltaram.

– Si, fijo uma gestão, e afinal foi falar com o coronel Alvim. Meu pai alegou que el tinha servido nas tropas de Franco, e isso el mirou-no com moita simpatia, era admirador de Franco, e dixo-lhe onde eu estava. Pero meu pai não era franquista, realmente. E aí localizárom-me e passei da prisão do II Exército, onde estava totalmente isolado, para outro quartel, que estava nas aforas de São Paulo. E aí quedei presso o resto do tempo, uns 4 meses. Encontrei-me já com outros estudantes, e aí descubrim que além do boliviano havia um vietnamita, que era um cristão, que tinha inclusive uma tia que era freira, e polo feito de ser vietnamita pugérom-no também alá [risas]. Pobre rapaz… porque ao não ter convicção política nenguma sofreu moito. E quedamos também sabendo que um tal Carlos Lamarca, que era capitão desse quartel, colheu e fogiu com um camião cheo de fussís e munição, para dar-lho à guerrilla. Esse Lamarca (que é um apelido viguês, ou galego — na praça de Compostela hai um comércio chamado Tapices Lamarca) foi-nos visitar antes de fugir; eu lembro-me da figura del. Pero ninguém desconfiara! El fugiu com o camião e foi formar uma facão, despois matárom-no os militares quando estava na guerrilla. Um tipo de colhões, verdadeiramente. Eu fiquei isolado das principais diatribas do passo para a clandestinidade porque estava presso. Quando me colhérom já deviam ter algum delator no piso onde estava, porque recém saím botárom abaixo as paredes. E ali descobrirom garrafões de ácido sulfúrico, uniformes do exército de camuflagem, munições, etc.

– E quando te soltam oferecem-te ir para a clandestinidade, não é?

– Si. Quando me soltárom entrou em contacto comigo uma rapaza e trouxo-me um feixe de cartos na mão, e preguntou-me se tinha alguma dificuldade econômica. Porque eles passaram a atracar bancos. E ao mesmo tempo ofereceu-me passar para a clandestinidade. Pero eu não podia deixar de lado a imagem de meus pais e o que iam sufrir com todo isso. E isso foi decisivo para eu não passar para a clandestinidade. Eu não aceitei o dinheiro, e ali foi o último contacto que tivem com eles nessa fase. Posteriormente tivem alguns contatos… pero eu passei a ser vigilado.

– E quando volviches contactar?

– Despois contactei com gente, por exemplo, que estava escondida em zulos que eu conhecia, pero que não delatei. Então vinhérom-me a agradecer… e ti vas dizer, “pero então ti não falaches nada!” Não. Si que falei. Tes que falar algo, porque senão te matam. Pero tes que saber o que vas falar. Tes que falar cousas que, de certa forma, desinformem. Eu por exemplo digem-lhes de um tipo “esse anda armado, é um tipo perigoso”; e na verdade andava armado, si, pero era um espia do exército. Se eu desse alguma informação sobre companheiros, aí já não havia volta atrás. Então, esses tipos que estavam aí – o tal de Beloki era um deles, era um tipo que casara recentemente, e el e a mulher passárom para a clandestinidade, e quedárom num zulo… bom, não é um zulo, é uma casa. Chamam-se zulos?

– Não, zulos chamam-lhe aos buratos.

– A esquerda de alá chama a isso “aparelho”. Eu fum dos que descobriu a casa, e fum canda eles a levá-los à casa. Se caía aquilo, caía todo. Foi uma das informações que conseguim gardar. (…) O que havia era que dissimular moito, se aparecias nalgum sítio não podias ser identificado. Ir com passamontanhas, ir por detrás sempre quando tinhas que participar em alguma… esse é o segredo. O tipo que quer aparecer, esse morre. Tens que saber levar as cousas da forma mais dissimulada possível.

– O que me chama a atenção é que foras capaz de sacar tempo para compaginar toda esta atividade com os estudos! Porque ti nunca tiveches problema…

– Somente o último ano, quando me capturárom antes de fazer os exames. Já estava no último curso, os exames realizavam-se em dezembro e a mim capturaram-me em novembro. Pero despois, como o exército não quer quedar mal, o próprio exército me facilitou fazer aqueles exames. Por que? Porque essa era uma mostra mais de que eu queria integrar-me, fazer uma vida “normal”. Algo que me favoreceu bastante também foi o seguinte: eu tenho um problema numa perna [mostra a perna esquerda, mais delgada que a direita] desde crio, quando tinha sete anos levei um golpe, infectou-se e quedou assim. E não tenho este movimento, só podo fazer este outro. E isso favoreceu-me, porque quando me prendérom tentei convencé-los de que eu não podia fazer cousas moi importantes porque tinha aquel problema, porque era… um deficiente. E era ao contrário, eu naquela época praticava artes marciais, kung fu… pero estudei a situação, analisei-na, e figem todo o possível para que eles o creram, e isso serviu-me moito.

– Antes de que vos colheram, suponho que teriades falado de que fazer, as técnicas a usar em caso de que vos capturaram, não?

– Psi… pero não esperávamos uma cousa tão repentina. Além disso, alá dentro tinha-se uma visão distorcida da realidade. Pensava-se que o que havia fora da cidade universitária era como que havia dentro, e não era. Aquilo foi um ghetto que surgiu de uma realidade completamente peculiar. Então nós não pensávamos “bom, agora vão-nos colher” (…) pensávamos que íamos exportar a revolução.

– Não contemplávades a possibilidade de fracassar, estávades cheos de otimismo revolucionário.

– Claro. Bom, aprendemos técnicas de como eludir quando estás sendo seguido, por exemplo parando em frente de uma vitrina para ver quem tens detrás… entrar num sítio e esperar… nós eramos moito mais inteligentes que os militares.

– O curioso é que despois trabalhaches, de algum jeito, para os militares…

– Si… aí passa que eu fum um tipo mais ou menos marcado (identificaram-me) pero tive a sorte de cair na simpatia de um comandante de Mar e Guerra. Porque eu fum trabalhar no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, que é um instituto público de investigação. Fum trabalhar no departamento de mecânica para produção de máquinas, ferramentas… O tipo que estava ao cargo, um tal Teixeira Mendes, era indiscutivelmente um militar de carreira, fijo um curso de marine nos USA, e era moi bem considerado. E “adoptou-me”, fijo o possível por… chegou a limpar o meu historial! É uma cousa que che ocorre uma vez na vida, como se che toca a lotaria. E isso possibilitou-me entrar a trabalhar na ENGESA. Eu trabalhava no IPT e nessa época desenvolvim, junto dum colega meu que era filho de alemães, um processador geométrico – que naquela época eram moi caros – que preparava os programas de control numérico para as máquinas operatrizes. Entrava com uns aspectos geométricos e saia já o programa preparado para produzir. Então, o Teixeira Mendes com quem eu trabalhava estava em contacto com a ENGESA, e fijo uma joint venture com o exército e com um grupo privado para desenvolver armas para o exército. Desse esforço surgiu o Cascavel, Cobra, blindados de assalto que fôrom moi vendidos para Líbia e para o Iraque.

[A conversa segue, mas a fita remata aqui]

[* VER]

Add a New Comment
or Sign in as Wikidot user
(will not be published)
- +

Outros artigos

Título Origem Data
"Pensávamos que íamos exportar a revolução" Blog "Outra Esquerda"

[outraesquerda] – Ti sempre dis que és de Teis, não é?

[Cesáreo] – Em Teis nascim, numa variante de Teis conhecida como Arnela — que é um termo bastante frequente na Galiza. Está perto do mar, a poucas dezenas de metros, perto de uma igreja; eu criei-me alá.

– A tua família era de ali?

– Si. Fala-se de que o pai de meu pai veu de Leão para alá… o apelido seu, Raimúndez, é tão frequente em Ponte Vedra como em Leão.

– A Vigo foram moitos leoneses…

– Si. Agora, de parte de minha nai, si, somos de alá.

– E despois fuches para o Brasil a mediados dos '50…

– Eu cheguei a Brasil no '56. Fum como reclamado dum imigrante: meu pai foi primeiro, e 4 anos despois reclamou-nos. Fomos num barco que era o “Highland Chieftain”, das Royal Lines, que aqui chamavam Mala Real Inglesa, e pensava-se que era uma cousa “mala” [risas]. Fum até alá numa viagem que demorou uns 11 dias; para um rapaz que tinha 10 ou 11 anos aquilo foi uma epopeia. A passagem do Equador, as festas que faziam para a ocasião, os bailes… o feito de ver a primeira sessão de cine ao céu aberto. Enfim, eramos imigrantes, mas os ingleses em certa forma cuidavam bem de nós. Lembro-me da comida, foi a primeira vez que entrei em contacto com o de comer um pouquerrechinho de manteiga no pão antes de comer… que é um costume que os portugueses adotárom dos ingleses. E assim… 11 dias despois estava alá, em Santos, que é uma ilha… bom, está conectada praticamente ao continente i é uma terra que no Brasil tem muita significação, é a terra de Brás Cubas, um dos pioneiros em colonizar o Brasil. Quando fomos para alá chegamos de noite. Lembro-me ainda de aquela calor, de aquel ambiente que se respirava.

– Quando chegaches ao Brasil, o tema da língua, por exemplo, como o levaches?

– Home, eu entendia o galego, e entendia português mais ou menos. Porque uma cousa é o galego e outra o português do Brasil falado… que em certa forma o português do Brasil entende-se melhor que o português de Portugal, porque tem uma fonética mais afim. Então não me foi difícil. Mas por exemplo, os primeiros dias eu aparte de “ir embora” dizia também “ficar embora”… até que me corrigim. Foi relativamente fácil.

– Porque em Teis falavas galego ou castelão?

– Eu entendia o galego pero não mo falavam. No âmbito familiar falavam-me galego, pero eu falava castelão porque não me deixavam praticamente falar galego. Isso devido a que, como eu estava sendo escolarizado, na escola na que eu estava, que era uma escola de monjas, não permitiam falar galego. Se falavas davam-che um cachete. Então, tododios falava comigo em galego pero não queriam que eu o falara. Ainda que de vez em quando soltava algo, era inevitável. Agora, o problema de falar uma língua… uma cousa que logo tive intenção foi de ser tomado por um nativo. Comecei a falar português revisando a fonética do que falava, e uns 4 ou 5 anos despois si que realmente conseguim expressar-me como um nativo. É uma língua preciosa, e tem uma literatura fantástica. O que é curioso é que despois, quando figem o equivalente ao bacharelato, tive contacto com as cantigas de amigo, as de Meendinho, Martin Códax…

– E fazia-se referência a a elas como galegas?

– Galaico-portuguesas. E resulta que Meendinho supõe-se que foi geograficamente o meu vizinho. Porque alá, em Arnela, hai um lugar que se chama Mende, mais ou menos por onde Pescanova. E supõe-se que Meendinho levou o nome de ali.

– Estando tão ao tanto da literatura, da arte e demais, como é que despois optaches por uma carreira técnica?

– Isso porque quando chegas como imigrante, a tua preocupação é sobreviver, não? E se é possível superar a condição na que chegaches; creo que isso é comum a todos os imigrantes. Então, que passa? A mim sempre me gustou o debuxo, e colhérom-me como aprendiz de debuxo. Meu pai tinha uns contatos numa empresa siderúrgica, que estava no início, então entrei de aprendiz ali. Comecei como debuxante, de oficinista, e acabei fazendo desenho gráfico no departamento de engenharia, com gente de engenharia (…) Isso entusiasmou-me pola engenharia e puxem-me a estudar as oposições [para entrar na carreira], por duas razões: uma, por progredir, e despois por outra inquietude: que nunca me gustou ser mandado, ter alguém por riba.

– Então, rematache o bacharelato, logo puxeches-te a trabalhar…

– Não, ao mesmo tempo. Eu trabalhava, e estudava pola noite. Levantava-me às 6:30 da manhã, chegava ás 7:30 ao local de trabalho, e no trem ia lendo apuntes. À volta, o mesmo. E à noite. (…) Eu não podia ir às academias preparatórias, isso era moi caro e eu era um operário. Então, tive que fazê-lo por conta própria. E afinal entrei nas duas melhores escolas do Brasil, simultaneamente! Uma foi a Politécnica, que era pública, e o outro era o ITA, Instituto Tecnológico de Aeronáutica, uma escola militar.

– Fuche admitido nas duas?

– Nas duas. No ITA, como não me presentei, chegárom a buscar-me com anúncios de televisão. Eu não tinha nem ideia, dixérom-mo despois. Porque era mui selecionado, para o Brasil inteiro eram 27 praças. E por que não me presentei? Porque na época era só para brasileiros, era uma escola militar de aeronáutica e tinhas que ser brasileiro.

– Então, por que figeches o exame se despois não podias entrar?

– Porque quigem, por ver. Como era praticamente o mesmo dia… e como me aceitárom na Politécnica, também… a politécnica era fantástica! Era uma escola nova, recém feita, com moitos meios, feita nos moldes da politécnica da Sorbona. Naquela época estavam construindo o campus universitário da Universidade de São Paulo (USP), que agora é uma verdadeira cidade. Eu fum dos que estrenárom as novas faculdades. Havia dinheiro naquela época, o Brasil estava com as arcas cheas, saia duma 2ª guerra mundial como exportador de café num mercado totalmente beneficioso, e meteu muito dinheiro na universidade. Contratou professores de fora, havia professores americanos. Enfim, uma escola fantástica.

– Então, ti quando es admitido ali…

– Tive que deixar de trabalhar, a primeira cousa.

– E ti, desde o começo matriculas-te em Teleco, ou é ao estilo americano, no que vas cubrindo assignaturas e despois dum tempo escolhes em que te graduas?

– Estilo americano: ti tes 2 anos; despois, a depender das tuas notas, podes escolher: Elétrica, Mecânica, Produção, etc. E com 2 suspensas ias fora. A minha sorte foi que era uma universidade pública, gratis totalmente.

– E o alojamento?

– Gratis. Havia umas instalações…! Porque houvo umas expectativas na época de receber uns jogos panamericanos, e foi construido um complexo residencial e umas áreas de lazer, campo de futebol e essas cousas… afinal não se celebrárom os jogos pan-americanos, e então invadimos aquilo.

– O famoso CRUSP, não? [NOTA: Complexo Residencial Universitário de São Paulo. Hai diversas páginas web dedicadas à sua memória. Pode-se consultar por exemplo esta com documentos da época sobre a tomada dos blocos residenciais polos estudantes. Ou por exemplo esta série de portadas da revista "Vanguarda", editada nos '60 polos estudantes do CRUSP]

– Si. Então, os primeiros estudantes que chegárom tomárom aquilo.

– Isso era a finais dos '60? Ou antes?

– Eu acabei no '69, e são 5 anos. Era no '64 (…)

– Quando falas de que os estudantes tomaram os prédios, isso foi algo espontâneo, autogerido…?

– Isso foi anterior a que eu entrasse alá, não saberia dizer-che. Havia um movimento político já, suponho que foi organizado.
– Quero dizer, não era algo oficial.

– Eu não sei de certo — teria que vê-lo — se esse movimento foi visto com bons olhos pola universidade. Porque ela ganhava também aqueles edifícios, que foram construídos com outro fim. Aquilo (o CRUSP) deveu durar uns 6 anos. Sobreviveu à invasão do exército, que foi a finais do '68, antes das navidades. Posteriormente, si, continuou gente vivendo ali, mas já moi vigilada. Aquilo foi destinado a alojamento de bolsistas, estudantes de fora.

– Quando a invasão do campus polo exército, entraram com tanques e todo, não?

– Si, claro. Entrárom com todo. Disparando não, mas havia grupos paramilitares… um chamava-se CCC, Comando de Caça aos Comunistas. Era um movimento de direitas, associado a ideologias católicas de ultra-direita, que sempre estão juntos.

– Era integrado por universitários?

– Si, em geral por “señoritos”. Havia uma faculdade ali que se chamava Mackenzie, estava ao lado da faculdade de Filosofia, que lhe chamavam Maria Antônia. Pois bem, essa Mackenzie era “facha”, e eles fomentavam grupos de estrema direita. Havia sempre loita entre a Mackenzie e a de Filosofia. Esses movimentos de direita eram fomentados e apoiados polos militares, inclusive com armamento. Chegárom, em vésperas da invasão, a passar em coches por diante dos alojamento e dar ráfagas de tiros. Não sei como não matárom ninguém, porque os edifícios tinham paredes que as balas podiam atravessar.

[NOTA: aqui corta-se a fita com a gravação. A conversa continuava falando das diversas facões estudantis, tanto de direita como de esquerda; o Cesáreo militava daquela na esquerda ortodoxa, marxista-leninista. O CRUSP era terreno amistoso para os activistas, onde o exército rara vez se atrevia a entrar… e quando o fazia às vezes era repelido. Acerca disto, um relatório da policia militar da época (disponível hoje como e-book em pdf) fala de "uma comunidade estudantil de mais de 1.400 pessoas, comunidade que se marginalizou às leis do país constituindo-se em um «ghetto», onde foi destruído totalmente qualquer resquício de princípio de autoridade". Que enveja ter vivido alá! ;-) Mas finalmente produz-se a invasão do CRUSP polo exército em Dezembro de 1968 e o Cesáreo, junto com outros muitos estudantes, é capturado. Será internado durante meses sem nenguma garantia legal, sem contato com o exterior e sem que a sua família soubesse del. Nos interrogatórios fazia-se uso da tortura, ainda que el tivo relativamente sorte: não lhe aplicárom eletricidade, nem lhe quedárom sequelas dos maus tratos. Outros não tiveram tanta sorte, algum foi castrado, outros morrérom…]

– Usavam dinamos para teléfonos de campanha (…) Dínamos que geram corrente (…) usava-nos para dar choques de corrente elétrica. Nada que aparecesse, entendes?

– Não deixavam marcas…

– Claro. Inclusive provocárom a morte de um boliviano, apelidado Carrasco. Porque naquela época o Che estava em auge, e polo feito de haver bolivianos alá o exército era tão obtuso que prendeu esses rapazes — que polo geral de direitas não eram, pero também não eram revolucionários. Eram dous irmãos, e um era hemofílico. El avisou de que era hemofílico, pero torturárom-no também e morreu pelas hemorrágias que lhe provocárom. Foi um dos mártires. Foi um movimento golpista, militar, e aí não hai razão. Uma falta de horizontes e uma censura terrível. O exército para mim é uma das cousas mais tontas que existem… sabes que a inteligência mide-se em tares, não? Hai o megatar, o tar e o militar; de aí já podes concluir. E bom, colhiam livros de bombas hidráulicas pensando que eram bombas explosivas… uma das cousas que figérom foi ver todas as publicações que havia, todo, todo, todo, colectárom a literatura subversiva… Havia livros de Marx, Lenin, Ho Chi Minh, Che Guevara, o francês esse que entrevistou o Che e publicou despois um tratado sobre as guerrillas… como se chamava? Regis Debray, esse tivo moito êxito. Daquela época era também Daniel Cohn-Bendit… e bom, o livro vermelho, por suposto, traído diretamente da China.

– Escrito em português, claro.

– Claro, claro.

– Os chineses publicava-nos em todas as línguas…

– Si, o livro vermelho de Mao… o capitalismo era um tigre de papel [risas]. E bom, pois esse era o contexto. E quando a invasão eu fum capturado, e colegas meus foram mortos, outros foram intercambiados por embaixadores americanos que foram capturados…

– O movimento revolucionário chegara a capturar embaixadores americanos?

– Si, e despois figérom uma troca de presos. Um colega meu de piso foi intercambiado e foi para Chile. A outro chamado Nílsson Cardoso não o capturárom, saiu antes e foi parar na RDA. Formou-se alá em engenharia química e hoje é diretor… não sei se já se retirou, pero antes era diretor da escola de engenharia química de São Carlos, na USP. Nesse movimento, por exemplo, havia espanhois… os irmãos Beloki, filhos de vascos… japoneses, havia de todo. Enfim, o movimento era bastante eclético. Meu nome de guerra era japonês, Aka Ochi, “estrela vermelha”.

– E a policia e o exército deviam de ter informadores…

– Si, tinham, tinham. Pero sabíamos quem eram. Chegamos a colher um uma vez, demos-lhe uma boa somanta. Figemos uma cousa que eles não figérom com nós… Colhemo-lo, íamos todos com passamontanhas, e figemos-lhe uma sessão de afogamento. Pugemos-lhe uma almofada na cabeça e botamos auga… e cantou todo o que tinha que cantar!

– Disseras-me que teu pai figera alguma gestão para conseguir que te soltaram.

– Si, fijo uma gestão, e afinal foi falar com o coronel Alvim. Meu pai alegou que el tinha servido nas tropas de Franco, e isso el mirou-no com moita simpatia, era admirador de Franco, e dixo-lhe onde eu estava. Pero meu pai não era franquista, realmente. E aí localizárom-me e passei da prisão do II Exército, onde estava totalmente isolado, para outro quartel, que estava nas aforas de São Paulo. E aí quedei presso o resto do tempo, uns 4 meses. Encontrei-me já com outros estudantes, e aí descubrim que além do boliviano havia um vietnamita, que era um cristão, que tinha inclusive uma tia que era freira, e polo feito de ser vietnamita pugérom-no também alá [risas]. Pobre rapaz… porque ao não ter convicção política nenguma sofreu moito. E quedamos também sabendo que um tal Carlos Lamarca, que era capitão desse quartel, colheu e fogiu com um camião cheo de fussís e munição, para dar-lho à guerrilla. Esse Lamarca (que é um apelido viguês, ou galego — na praça de Compostela hai um comércio chamado Tapices Lamarca) foi-nos visitar antes de fugir; eu lembro-me da figura del. Pero ninguém desconfiara! El fugiu com o camião e foi formar uma facão, despois matárom-no os militares quando estava na guerrilla. Um tipo de colhões, verdadeiramente. Eu fiquei isolado das principais diatribas do passo para a clandestinidade porque estava presso. Quando me colhérom já deviam ter algum delator no piso onde estava, porque recém saím botárom abaixo as paredes. E ali descobrirom garrafões de ácido sulfúrico, uniformes do exército de camuflagem, munições, etc.

– E quando te soltam oferecem-te ir para a clandestinidade, não é?

– Si. Quando me soltárom entrou em contacto comigo uma rapaza e trouxo-me um feixe de cartos na mão, e preguntou-me se tinha alguma dificuldade econômica. Porque eles passaram a atracar bancos. E ao mesmo tempo ofereceu-me passar para a clandestinidade. Pero eu não podia deixar de lado a imagem de meus pais e o que iam sufrir com todo isso. E isso foi decisivo para eu não passar para a clandestinidade. Eu não aceitei o dinheiro, e ali foi o último contacto que tivem com eles nessa fase. Posteriormente tivem alguns contatos… pero eu passei a ser vigilado.

– E quando volviches contactar?

– Despois contactei com gente, por exemplo, que estava escondida em zulos que eu conhecia, pero que não delatei. Então vinhérom-me a agradecer… e ti vas dizer, “pero então ti não falaches nada!” Não. Si que falei. Tes que falar algo, porque senão te matam. Pero tes que saber o que vas falar. Tes que falar cousas que, de certa forma, desinformem. Eu por exemplo digem-lhes de um tipo “esse anda armado, é um tipo perigoso”; e na verdade andava armado, si, pero era um espia do exército. Se eu desse alguma informação sobre companheiros, aí já não havia volta atrás. Então, esses tipos que estavam aí – o tal de Beloki era um deles, era um tipo que casara recentemente, e el e a mulher passárom para a clandestinidade, e quedárom num zulo… bom, não é um zulo, é uma casa. Chamam-se zulos?

– Não, zulos chamam-lhe aos buratos.

– A esquerda de alá chama a isso “aparelho”. Eu fum dos que descobriu a casa, e fum canda eles a levá-los à casa. Se caía aquilo, caía todo. Foi uma das informações que conseguim gardar. (…) O que havia era que dissimular moito, se aparecias nalgum sítio não podias ser identificado. Ir com passamontanhas, ir por detrás sempre quando tinhas que participar em alguma… esse é o segredo. O tipo que quer aparecer, esse morre. Tens que saber levar as cousas da forma mais dissimulada possível.

– O que me chama a atenção é que foras capaz de sacar tempo para compaginar toda esta atividade com os estudos! Porque ti nunca tiveches problema…

– Somente o último ano, quando me capturárom antes de fazer os exames. Já estava no último curso, os exames realizavam-se em dezembro e a mim capturaram-me em novembro. Pero despois, como o exército não quer quedar mal, o próprio exército me facilitou fazer aqueles exames. Por que? Porque essa era uma mostra mais de que eu queria integrar-me, fazer uma vida “normal”. Algo que me favoreceu bastante também foi o seguinte: eu tenho um problema numa perna [mostra a perna esquerda, mais delgada que a direita] desde crio, quando tinha sete anos levei um golpe, infectou-se e quedou assim. E não tenho este movimento, só podo fazer este outro. E isso favoreceu-me, porque quando me prendérom tentei convencé-los de que eu não podia fazer cousas moi importantes porque tinha aquel problema, porque era… um deficiente. E era ao contrário, eu naquela época praticava artes marciais, kung fu… pero estudei a situação, analisei-na, e figem todo o possível para que eles o creram, e isso serviu-me moito.

– Antes de que vos colheram, suponho que teriades falado de que fazer, as técnicas a usar em caso de que vos capturaram, não?

– Psi… pero não esperávamos uma cousa tão repentina. Além disso, alá dentro tinha-se uma visão distorcida da realidade. Pensava-se que o que havia fora da cidade universitária era como que havia dentro, e não era. Aquilo foi um ghetto que surgiu de uma realidade completamente peculiar. Então nós não pensávamos “bom, agora vão-nos colher” (…) pensávamos que íamos exportar a revolução.

– Não contemplávades a possibilidade de fracassar, estávades cheos de otimismo revolucionário.

– Claro. Bom, aprendemos técnicas de como eludir quando estás sendo seguido, por exemplo parando em frente de uma vitrina para ver quem tens detrás… entrar num sítio e esperar… nós eramos moito mais inteligentes que os militares.

– O curioso é que despois trabalhaches, de algum jeito, para os militares…

– Si… aí passa que eu fum um tipo mais ou menos marcado (identificaram-me) pero tive a sorte de cair na simpatia de um comandante de Mar e Guerra. Porque eu fum trabalhar no Instituto de Pesquisas Tecnológicas, que é um instituto público de investigação. Fum trabalhar no departamento de mecânica para produção de máquinas, ferramentas… O tipo que estava ao cargo, um tal Teixeira Mendes, era indiscutivelmente um militar de carreira, fijo um curso de marine nos USA, e era moi bem considerado. E “adoptou-me”, fijo o possível por… chegou a limpar o meu historial! É uma cousa que che ocorre uma vez na vida, como se che toca a lotaria. E isso possibilitou-me entrar a trabalhar na ENGESA. Eu trabalhava no IPT e nessa época desenvolvim, junto dum colega meu que era filho de alemães, um processador geométrico – que naquela época eram moi caros – que preparava os programas de control numérico para as máquinas operatrizes. Entrava com uns aspectos geométricos e saia já o programa preparado para produzir. Então, o Teixeira Mendes com quem eu trabalhava estava em contacto com a ENGESA, e fijo uma joint venture com o exército e com um grupo privado para desenvolver armas para o exército. Desse esforço surgiu o Cascavel, Cobra, blindados de assalto que fôrom moi vendidos para Líbia e para o Iraque.

[A conversa segue, mas a fita remata aqui]/Depoimento do ex-morador do CRUSP Cesáreo Raimúndez Álvarez, professor da Universidade de Vigo. O texto está em galego. ||

Unless otherwise stated, the content of this page is licensed under Creative Commons Attribution-ShareAlike 3.0 License