Resposta do Prof. Pedro Luís Machado Sanches à "Mensagem" da COSEAS

20/03/2010, 08:22
Esta carta responde a um COMUNICADO enviado a alunos, funcionários e professores da USP em que as assistentes da COSEAS pedem ajuda para "retomarmos nosso espaço" (espaço este que fica no interior de um prédio do CRUSP destinado originalmente à moradia)

Remetente: Prof. Pedro Luís Machado Sanches
Destinatário: "Equipe do Serviço Social da Coseas"


Prezados (as) senhores (as) da "Equipe do Serviço Social da Coseas Com o apoio da Coordenadora da Coseas e de seus Diretores",

sou doutorando da Universidade de São Paulo e ex-morador do CRUSP. Atualmente não dependo mais de uma bolsa moradia mas os meus 7 anos de vivência cruspiana me permitem fazer um diagnóstico legítimo da situação.

Vejo com grande preocupação o fato dos alunos terem novamente invadido as dependências do COSEAS, mas também me preocupa muito as considerações que os senhores subscreveram e me enviaram.

Assisti o Crusp de Madeira, com janelas âmplas e apartamentos de dois grandes quartos coletivos dar lugar aos atuais três quartos estreitos e escuros (com janelas venezianas que não se abrem por completo), quartos individuais em apartamentos dotados de salas pouco funcionais onde foram instaladas as pias, o que tornou impraticável tanto a convivência dos moradores em suas próprias salas, quanto a recepção de hóspedes por qualquer período de tempo.

Claramente, o CRUSP ficou mais "correto", mais ordenado e, para um certo padrão de vida, mais útil. Entretanto, muita coisa também se perdeu com a transformação do CRUSP: pude ver que à medida que o CRUSP trocava a madeira pelo gesso, trocava também a música pelo silêncio, as cores pelo branco, a união pela solidão. As cozinhas ganharam bancadas de concreto que impedem que o espaço seja transformado em pista de dança nas noites de sexta, ou em local de ensaio de grupos musicais ou da prática de capoeira, nos fins-de-semana. Dezenas de caminhões trouxeram enormes pedras para fazer uma montanha na praça do relógio, onde os cruspianos jogaram futebol por décadas…

O CRUSP intristeceu. Já não é o caldeirão cultural que marcou sua história, já não é mais o único local da dispersa Universidade onde estudantes de física, artes plásticas e chinês podem trocar experiências e viver a diversidade intensamente, o que significaria, como significou para muitos, uma parte incrivelmente importante de suas FORMAÇÕES.

Vejo na reivindicação de maior autonomia apresentada pelos estudantes uma legítima retomada deste sentido maior do CRUSP, um sentido que o Serviço Social não foi jamais preparado "profissionalmente" para entender.

A intransigência positivista de acreditar que apenas a formação acadêmica em Serviço Social qualifica alguém a selecionar novos moradores para o CRUSP é um engano histórico. O CRUSP nasceu de uma ocupação, se ampliou por meio de ocupações e eu me lembro que, se não houvessemos ocupado uma lavanderia desativada e inútilizada, teríamos, na minha época, que viver na grama até que os trabalhos de seleção fossem concluídos, pois o CRUSP não tinha então alojamentos…

No CRUSP, quase tudo foi conquistado, eu me lembro bem. E a luta de agora não me parece ser nada diferente da que tivemos no passado. Uma repetição que é lamentável…

A intransigência dos senhores, encastelados no COSEAS, só serve para documentar a legitimidade das reivindicações dos estudantes em mais um triste capítulo da História do CRUSP. Quem tem documentos "pessoais" (se eram pessoais, o que estavam fazendo num local de trabalho?) a esconder, não me parece estar em condições de deslegitimar a luta de
quem depende e defende a moradia estudantil.

Saudações!

Pedro Luís Machado Sanches
(0055 - 53) 81241148
Doutorando do MAE-USP
Professor da UFPel

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