Universidade para todos

Juventude Marxista
27/02/2011, 18:00
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Universidade para todos

São Paulo — USP

Entramos na USP, uma universidade pública e gratuita, considerada uma das melhores da América Latina. Sem dúvida todos os estudantes calouros merecem parabéns por essa conquista! Sejam bem vindos!

Porém temos muito ainda a conquistar nas universidades públicas no Brasil. Apenas uma ínfima parcela dos estudantes em idade de cursar ensino superior consegue ter acesso à uma universidade pública. Comparados com outros países, como a Venezuela, que está passando recentemente por uma universalização do ensino superior público e gratuito, a situação do estudante no Brasil é lamentável: têm de passar pelo funil que é o vestibular, disputar à tapa as poucas vagas que existem nas universidades públicas ou ainda sujeitar-se às migalhas das cotas que no fundo mascaram a situação de uma universidade elitista e para poucos. Além disso, a USP, mesmo sendo considerada uma ótima faculdade, sofre do desmantelamento e o sucateamento do ensino superior no Brasil.

Vamos percebendo no nosso dia a dia e ao longo do curso esse desmantelamento. Salas de computadores que não funcionam, professores que se aposentam sem que haja concurso para contratação de novos, laboratórios com máquinas quebradas e sem manutenção, cursos com salas superlotadas, bandejões que fecham ou são terceirizados. E isso não atinge somente o universo dos estudantes, mas também dos funcionários. Neste início do ano, por exemplo, 270 trabalhadores da universidade receberam como presente de ano novo a demissão de seus cargos. Com a justificativa de que precisa “renovar” o quadro de funcionários, a Reitoria demitiu na calada da noite trabalhadores que há anos constroem a universidade e garantem sua qualidade, deixando centenas de famílias sem sua fonte de sobrevivência.

Ao mesmo tempo vemos em alguns cursos, onde há interesse do capital e do mercado, salas equipadas com itens de última geração e pesquisas milionárias. Isso ocorre porque a universidade está cada vez mais sendo tomada pelas fundações privadas, que se instalam como parasitas direcionando o ensino e as pesquisas ao interesse do capital. O que temos é uma universidade, construída com dinheiro público e de todos, revertendo sua produção e conhecimento não para o interesse da população, mas para a lógica do mercado e da exploração.

Tudo isso sem contar a repressão que as últimas gestões de reitores e do governo estadual de Alckmin tem imposto à USP. Em 2009 tivemos, depois de 30 anos do fim dos ataques da ditadura, a repressão da PM no campus durante uma manifestação contra a UNIVESP (Universidade Virtual do Estado de São Paulo), que deflagrou publicamente a mão de ferro do governo estadual em relação a toda e qualquer reivindicação por uma universidade pública, gratuita e de qualidade.

Mas o que nós, que acabamos de entrar podemos fazer para mudar essa situação? Podemos fazer muito! A força da organização dos estudantes é um dos motores, conjuntamente com a organização dos professores e trabalhadores, de mudanças reais na Universidade.

Permanência estudantil é um direito

O Reitor da USP já declarou que “público não quer dizer gratuito” e no ano passado tivemos a criação do primeiro curso de graduação pago na USP, através de uma fundação privada. Mas não é somente com cobranças de mensalidade que uma universidade deixa de ser gratuita. Após passar no vestibular, nos perguntamos: Como permanecer? Os gastos com moradia, alimentação, transporte, cópias, livros, saúde, entre outros, são altos e são o principal motivo para as evasões da universidade.

As políticas de permanência estudantil na USP não se configuraram como um direito do estudante, mas como mais um filtro excludente dentro da própria universidade. Todo ano entram mais de 10 mil estudantes na USP e o alojamento emergencial no CRUSP (Conjunto Residencial da USP) tem apenas 76 vagas! Ao invés de ampliar esse número,
a Reitoria da Universidade e a COSEAS (Coordenadoria de Assistência Social) realiza todo tipo de manobra para excluir a demanda real que existe por moradia e auxílios emergenciais: como encerrar as inscrições para o alojamento provisório antes de começarem as aulas, considerar estudantes que moram no extremo leste ou extremo Sul de São Paulo como “estudantes que moram perto”, etc.

No ano de 2010, quando a COSEAS ignorou todas as reivindicações referentes à permanência estudantil e excluiu mais de 100 calouros da “seleção” para o alojamento, os moradores do CRUSP, reunidos em assembleia, decidiram pela ocupação de parte da moradia estudantil que há anos era utilizada para abrigar a burocracia da COSEAS e pelo banco Santander.

Aumento imediato de vagas para moradia estudantil

Essa ação coletiva dos estudantes conquistou uma moradia estudantil autônoma que existe até hoje: a Moradia Retomada, localizada no bloco G do CRUSP e que está de portas abertas recepcionando todos que precisam de moradia. Lá a COSEAS não interfere com seu processo excludente. Saiba mais em: http://moradiaretomada.wikidot.com. Essa ação vem no bojo da greve e da ocupação da Reitoria de 2007 — uma luta conjunta realizada entre estudantes, professores e trabalhadores da USP — quando conseguimos conquistar que o novo bloco de moradia, que estava sendo construído há mais de 3 anos a passos de tartaruga, tivesse sua obra acelerada. A entrega está prevista para maio deste ano e não devemos baixar a guarda e sim lutar para que esse bloco resulte num aumento imediato da moradia estudantil.

Em outras unidades da USP, como em São Carlos, vemos também o exemplo da ação estudantil: o processo seletivo para o “Aloja USP São Carlos” é realizado pelos próprios moradores. Quando em 2010, a COSEAS tentou violentamente impor seu processo excludente por lá, os estudantes se organizaram e ocuparam a sede da Coordenadoria do Campus até terem garantido a autonomia sobre o processo de seleção e outras reivindicações. A pressão da mobilização e luta por permanência estudantil reverberou na reitoria que se viu obrigada a aprovar um aumento de 40% nos recursos destinados a permanência estudantil. Apesar de ser uma vitória, o uso desta verba está em disputa e cabe ao movimento estudantil lutar para esse aumento ser revertido em bolsas de estudo, com critérios socioeconômicos, sem contrapartida de trabalho. Esses 40% podem ser uma força para seguirmos na luta ou um prêmio cala-boca.

Nesse sentido, tem sido preocupante o silêncio das entidades estudantis (DCE e Centros Acadêmicos) da USP sobre a luta por permanência. As entidades estudantis que ajudamos legitimamente a eleger deveriam estar ao nosso lado nas lutas e reivindicações. Após um ano de denúncias sobre o sistema de vigilância da vida política e pessoal dos moradores do CRUSP que é feito pela COSEAS, sobre o processo seletivo obscuro, sobre a criminalização desta luta, a gestão atual do DCE-Livre da USP e a maioria das gestões dos Centros e Diretórios Acadêmicos insistem em apresentar a COSEAS em seu “Manual do Calouro” como se nada soubessem, sem fazer nenhuma crítica e sem expressar a importância desta luta. Como se não bastasse, nem sequer divulgam a existência da Moradia Retomada e seu processo de recepção!

DCE para lutar pelas reivindicações

Nossas entidades estudantis não devem estar apáticas diante de mais esta luta. Cabe a elas apoiarem e impulsionarem as reivindicações dos estudantes, não só em relação a permanência estudantil, mas em todas aqueles que vierem da base estudantil.

Cabe ao movimento estudantil da USP e suas entidades lutarem por:

  • Vagas para todos: por uma verdadeira universalização do ensino superior
  • Aumento imediato de vagas para a moradia estudantil
  • Construção de moradias e restaurantes universitários em todos os campi
  • Criação de bolsas de estudo, com critérios puramente socioeconômicos
  • Contratação imediata de professores e funcionários

Contatos:
Leslie — FAU — moc.liamg|oteroleilsel#moc.liamg|oteroleilsel
Ludmila — ECA — moc.liamtoh|allecafdul#moc.liamtoh|allecafdul

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Título Origem Data
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