Alerta: Gestapo na USP

COSEAS-Ocupada
01/04/2010, 18:00
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Alerta: Gestapo na USP

Carta Aberta à todos os Uspianos e à todos os Seres Humanos pela formação da Comissão da Verdade Cruspiana.

No dia 18 de março de 2010 retomamos o espaço residencial de estudantes do Bloco G ocupado irregularmente pelo Coseas. Visávamos apenas a sua liberação para a sua função original de moradia estudantil. Surpresa: encontramos ali toda uma documentação que comprova que, longe de ser uma central administrativa para o bem estar do condomínio dos alunos da USP, o Coseas se trata de uma verdadeira sucursal da Gestapo cuja missão é transformar o CRUSP num campo de concentração. Para nós, moradores cruspianos, foi um choque. Sentiamos a opressão das SS de Frau Rosa Godoy; mas não sabíamos do seu caráter institucional e sistêmico. E é exatamente este caráter que precisa ser denunciado e extirpado do campus para o bem dos uspianos e da própria humanidade.

Sistema de delação institucional

Em nosso encontro com a diretora Rosa Godoy, frau nos apresentou, diante de uma câmera, relatórios produzidos por um serviço interno de espionagem que viola a nossa privacidade. Esses relatórios são anexados aos documentos de avaliação “socio­econômica” de moradores do CRUSP, submetendo a concessão e a continuidade das bolsas a critérios obscuros, justificados por apontamentos de “agentes de segurança”. Algum tempo depois a nossa Himmler de saias percebeu o absurdo deste sistema. Sinceramente arrependida de ter permitido o nosso acesso a estes relatórios, passou a negá-los e a reconhece-los como um erro.

A leitura destes relatórios revelam a orientação geral para que os agenteSS de frau Rosa atuem com determinação para que se aplique a máxima facista "estudante só deve estudar e morador só deve morar". Com este lema proíbem e reprimem pequenas confraternizações nos apartamentos, mesmo que elas aconteçam discretamente e não provoquem “reclamações”. E até quando discutimos coletivamente nossos problemas, isso configura para a instituição um desvio de conduta. Encontramos um maço de relatórios do serviço da COSEAS que descrevem detalhadamente nossas assembleias, com assuntos discutidos e identificação por nome, apartamento e até apelido das pessoas presentes. Se uma assembleia é assunto da segurança então a discussão política deve ser crime no entendimento da direção desta Coordenadoria. Política só é crime em regimes de exceção. Mesmo o regimento interno do CRUSP, que não teve participação de moradores em sua elaboração, prevê nosso direito a discutir nossos problemas.

Sistema manicomial de tratamento dos “desajustados”

Eis que, de repente, sai de cena Himmler e sobe ao palco o dr. Mengele. O aparato de vigilância de Rosa Godoy tem outros objetivos que não a nossa segurança. Ele fornece dados para que frau Marília Zalaf desenvolva sua tese sobre “saúde coletiva”. Mas o caráter científico das pesquisas da Mengele de saias não se reduz à coleta e tratamento de dados. Produz também diretivas operacionais para que os agenteSS coloquem em prática. Uma destas práticas é o condicionamento a permanência de um estudante na vaga da moradia à submissão do mesmo a um tratamento psiquiátrico. As provas documentais deste procedimento são fartas.

Sistema “cadeião” de visitas

“Hóspedes irregulares”: é com este selo burocrático que os agenteSS designam qualquer visita (mesmo esporádica!) que recebamos. Até mesmo filhos de moradores são “hóspede irregulares” nas fichas das portarias, como o bebê de dois meses que recebeu uma ordem de despejo.

A vida de um cruspiano só difere da de um detento dos cadeiões do estado pelo caráter “opcional” da permanência. Enquanto os guardas penitenciários vigiam para que o detento não saia da cadeia, os agenteSS de her (ou Frau) Rosa estão mobilizados para que, assim que ordem baixar, expulsar imediatamente o rejeitado do sistema.

Por quê os cruspianos desejam tanto ingressar e se manter nos cadeiões de Frau Rose? Serão eles masoquistas à procura de castigos e punições? Ou serão apenas estudantes carentes cuja permanência na universidade depende totalmente da liberação dos custos de morar distante do campus? Para um estudante de baixa renda, a falta de um lugar para morar e de condições para se alimentar podem significar a desistência de cursar o ensino superior. Os que, apesar disso, ainda não desistiram, vêm passando por muitas dificuldades para cursar a graduação na USP, por conta da restrição cada vez maior nas políticas de permanência. Os moradores do CRUSP tentaram incessantemente solucionar estes problemas por meio do diálogo com a direção da Coordenadoria de Assistência Social da USP (COSEAS), que não demonstrou nenhuma disposição para resolvê-­los. Ao contrário: sua direção tentou intimidar os moradores presentes nas reuniões de negociação, não cedeu sequer vagas emergenciais suficientes para os calouros de 2010, deixando 100 pessoas de fora, e negligenciou todas as outras reivindicações.

Sistema noturno de expulsão dos “rejeitados”

Em reunião com a AMORCRUSP (16/10/2009), Rosa Godoy disse não haver expulsões noturnas e nem diurnas de moradores pois, segundo nosso regimento, estas expulsões só podem ocorrer depois dos processos passarem por uma comissão mista, que não se reúne há mais de um ano. Depois, em outra reunião (18/11/2009), para evitar a assinatura de uma declaração, disse que não era bem assim, que verificou e descobriu que houve alguns casos. Nós que convivemos nesta moradia sabemos das atrocidades que acontecem nas madrugadas, escondidas na periferia da Cidade Universitária.

65 a 68, tempo em que o CRUSP era uma comunidade

O CRUSP é uma história de iniciativas estudantis. O seu fazer-se é marcado por movimentos de retomadas de espaços fechados e de processos de auto-organização e autogestão. Para os senhores do Poder no Brasil este conjunto residencial assumido pelos estudantes sempre foi uma pedra no sapato. Os seus criadores nos anos de chumbo de 65-68 são os melhores testemunhos do que foi (e continua sendo) a história do CRUSP para a USP, para o movimento estudantil, para a cidade e o estado de São Paulo, para a civilização brasileira e para toda a humanidade:

O Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, na sua versão original e libertária, foi encerrado em 17 de dezembro de 1968. O AI-5 decretado pelos militares golpistas de 64 fechou, simultaneamente, o Brasil e o CRUSP. Na madrugada, tropas do exército cercaram o CRUSP, prenderam 800 estudantes,fecharam o conjunto residencial da USP, instauraram um IPM — Inquérito Policial Militar, que resultou em processo e ordem de prisão para 32 residentes. Nos anos seguintes dezessete de seus melhores filhos (Lauriberto Leyes, Geová, Chico Dialético, Rui, José Arantes, etc) foram mortos pela besta que se abateu sobre o nosso país em 64 e continua a determinar a nossa existência até os dias de hoje. Segue a história resumida do CRUSP-68 contada pelos seus próprios criadores:

O CRUSP nasceu à fórceps. Projetado como conjunto residencial na Cidade Universitária para os estudantes da USP, só foi construído diante da necessidade de abrigar os atletas que participaram dos Jogos Pan-Americanos de 1963, realizados em São Paulo. Após o encerramento da competição, foi invadido pelos estudantes para que cumprisse a finalidade para a qual fora projetado: abrigar alunos de fora da capital paulista, sem condições de bancar sua moradia durante a duração de seus cursos. Naqueles cinco anos de funcionamento, o CRUSP foi fonte inspiradora e alimentadora do movimento estudantil brasileiro e de vivências existenciais, culturais e políticas criativas, transformadoras e de contestação à repressão imposta ao país a partir de 1964 — que desaguaram nas grandes manifestações de 1968, ano síntese do engajamento da juventude do País e do Mundo em prol da liberdade e da justiça social. Durante todo o período, passaram pelo CRUSP em torno de 2500 estudantes. No dia da ocupação pelo Exército cerca de 1400 alunos moravam oficialmente no conjunto residencial, sendo que aproximadamente 800 estavam em seus apartamentos na madrugada de 17 de dezembro, pois muitos já haviam viajado para suas cidades de origem para passar o Natal e o Ano Novo com suas famílias.

O Exército mobilizou tanques e táticas de guerra, com soldados se deslocando de árvore em árvore, protegendo-se atrás de morretes e bancos de cimento, à espera de uma reação que jamais ocorreria. Todos os moradores se entregaram pacificamente e foram presos. Uns saíram rapidamente da prisão outros passaram longa temporada nela, quase sempre sem explicações. E trataram de reconstruir suas moradias pelos bairros de São Paulo, principalmente Pinheiros, Butantã e Vila Madalena, todos com grandes dificuldades, e continuar seus estudos. O tempo ajudou a maioria a superar as dificuldades, mas muitos sucumbiram ao brusco corte que o fechamento do CRUSP representou em suas vidas.

Ao contrário do que se propagava e passou erroneamente para a história, o CRUSP era um espaço em que viviamos como os demais estudantes, apenas gozando de mais liberdade e do privilégio de uma moradia a que não teríamos acesso com nossos próprios recursos, pois éramos de famílias de fora da capital, do interior do Estado de outras regiões do País e até mesmo do exterior. Ali estudávamos, namorávamos, jogávamos baralho, freqüentávamos o restaurante, a Banca da Cultura, o Bar do CRUSP, dançávamos nos bailes, praticávamos esportes, assistíamos e fazíamos teatro, shows, assembléias.

Sintonizados com o espírito da época, reivindicávamos — e muito. E quando às nossas reivindicações eram contrapostas negativas injustificadas tomávamos a iniciativa de conquistá-las. Assim se deram as invasões dos blocos F e G, para abrigar estudantes aos quais se negavam vagas, da tomada do ISSU — Instituto de Serviço Social da USP —, por causa da deficiência de seus serviços, a tomada da lavanderia, a resistência à derrubada dos blocos, I,J e H, a participação intensa, no movimento estudantil da época. Mais do que intensa, pois o CRUSP era um dos principais espaços em que o movimento estudantil discutia estratégias a seguir diante da dramática evolução dos acontecimentos políticos do país, principalmente em 1968.

A vivência no CRUSP, naquela época, deixou na maioria de nós, hoje na casa dos 60 a 65 anos de idade, já avós, quase todos com carreiras profissionais bem sucedidas, a lembrança de termos vivido em um espaço privilegiado, em um momento privilegiado, que marcou, para sempre, nossa existência e o modo de vermos o mundo. Fomos beneficiários de um projeto de residência estudantil, posto em pé graças às próprias iniciativas e lutas dos estudantes, que deveria existir em todas as universidade públicas, pelo menos. Mas que um dia foi fechado arbitrariamente por um regime politicamente conservador e retrógrado, empenhado em sufocar a liberdade e nunca mais foi reaberto nos mesmos moldes, apesar do país viver há 23 anos em um regime democrático.

O CRUSP se tornou um espaço de construção de um mundo melhor e mais justo, atitude que norteou o resto de nossas vidas. Nós nos reencontramos na associação CRUSP-68 para começar a resgatar a história daquele espaço mágico, onde vivemos um dos melhores períodos de nossa existência. Não apenas com o intuito de registrá-la, mas para que ela também sirva de exemplo para que outros jovens tenham a mesma oportunidade.

68 a 2019, tempo de desmontar o Crusp

A partir de dezembro de 68 iniciou-se a operação desmonte do CRUSP. Primeiro tratou-se de sua demolição física. A primeira medida a ser tomada foi a demolição do seu centro de vivência, lugar “maldito” onde todos os estudantes da USP se encontravam para conversar e pensar. Junto com as piscinas e as quadras esportivas, cederam lugar para uma avenida lateral que, entre outras funções civilizatórias, separa o conjunto residencial daquele que seria o espaço natural da vivência estudantil, o Cepeusp. Depois veio a colocação por terra das três estruturas esqueléticas que se erguiam como uma promessa para uma expansão da moradia estudantil. Em seu lugar traçou-se uma larga avenida que vai de coisa nenhuma para lugar algum. Por fim as estruturas restantes foram ocupadas pela administração da reitoria, pela COSEAS e pela infame presença do Santander. O problema da carência de moradia estudantil não é, portanto, a ausência de vagas. É sim, a decisão deliberada de algum “grupo externo” (expressão tão grata à direita uspiana) imposta à comunidade uspiana pela força.

Em resposta à retomada promovida pelos estudantes em 1995, o COSEAS foi elevado à condição que ocupa hoje, de Comando policial no interior do Campus, legítmo sucessor das funções que em 63-80 eram atribuídas ao Deops e ao Dói-Codi

A humanidade avança e a USP, Rodas…

Pioneiro na reintrodução da polícia no currículo da USP, Rodas trata a questão cruspiana com a sua característica sensibilidade de macho alfa: aquele que lidera a horda a partir do princípio da força. O seu infeliz artigo publicado no jornal Folha de São Paulo se inicia repetindo a velha cantilena dos “bloqueios e invasões por parte de grupos internos e externos”. Qualquer semelhança com as “ideias” expelidas pelos monstros Médici, Geisel e quejandos não é mera coincidência. É apenas a história se repetindo em farsa e demonstrando que a ditadura de 64 continua nos dias de hoje apenas trocando de rituais e de protagonistas: em 68, Busaid; em 2010, Rodas. Mudaram apenas as moscas…

Mas as quatro questões que levanta são, realmente, pertinentes; o que não é pertinente é objeto de investigação. Nós, os estudantes, não invadimos nada; apenas estamos tentando recuperar para a vida os mausoléus do COSEAS e do Santander criados pela ditadura atual. Mas elas cabem perfeitamente para orientar a investigação que uma comissão composta por personalidades expoentes na luta pela liberdade em nossa terra promove em relação à Gestapo-Coseas:
“tomo a liberdade de usar (este espaço) neste momento para incitar que cada leitor — tanto os mais de 100 mil alunos, professores e funcionários da USP quanto os mais de 40 milhões de paulistas, que, por pagarem o ICMS, são responsáveis por financiá-la- medite e responda às seguintes interrogações:

  1. É moral e lícita a invasão (surda e subreptícia) do CRUSP promovida pela Gestapo-Coseas?
  2. Deve ela ser tolerada?
  3. Tal expediente será aceitável se o objetivo for propiciar atingir objetivos ideológicos?
  4. A administração da universidade, o Ministério Público, o Judiciário e outros órgãos da sociedade devem restar inertes?

2010, tempo do Crusp voltar a ser uma comunidade

Em 1968 as atividades estudantis no CRUSP não tinham holofotes, drogas, caixas de som pesado, garotas rebolando na boquinha da garrafa, touros mecânico, gritinhos histéricos de fã-clubes. O centro da ribalta era ocupada por seres humanos tranquilos, despojados de efeitos especiais, conversando num bom humor sensível e atento. As atividades levadas pela AURK buscavam o crescimento cultural e o afeto coletivo: as apresentações do grupo de dança de Solano Trindade, os grupos de música e de teatro dos estudantes com suas apresentações periódicas, os campeonatos esportivos, o estabelecimento de frentes de trabalho para o debate coletivo dos problemas candentes da nossa terra como as questões energética, da posse da terra, da dominação imperialista, etc. Sem multimídia, som estereofônico, fumaça de gelo seco, guitarras estridentes o que contava era, acima de tudo, a alegria coletiva tão intensa que quase se podia tocá-la com as mãos. Quando o fenômeno do encontro humano acontece, só sabe dele quem o fez. A experiência de sentir e pensar o humano se fazendo em samba, batucadas, jongo, maracatu, canções em rodinhas, ensaios de Brecht, debates acalorados, é intransferível.

Os golpistas que fecharam o CRUSP, mergulharam a civilização brasileira na mais profunda noite da sua história. Nesta escuridão permanecemos até hoje. E contribuem para que nela nos percamos os golpistas de hoje. O CRUSP 68 foi uma universidade Livre na USP aprisionada. Com o AI-5 restou só a USP aprisionada. Os cruspianos de hoje querem retomar o fio rompido naquele fatídico dezembro de 68. Queremos o CRUSP 2010 como uma universidade Livre no interior da USP aprisionada de hoje.

  • Estudantes uspianos: saibam que uma universidade muito melhor e mais criativa é possível; o CRUSP 2010 é uma necessidade premente para nós;
  • Professores uspianos, principalmente aqueles que foram moradores do CRUSP 63-68: porque nos negam o direito à felicidade da melhor pedagogia que já aconteceu nesta cidade Universitária?
  • Trabalhadores uspianos: certamente desta nova universidade libertária vocês serão parte integrante e importante.

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Título Origem Data
Coseas: basta deste sistema de gestão de material humano Coletivo odiamos Rosa Godoy — Universidade Para Quem? (blog) 18/03/2010
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