CRUSP = prisão (depoimentos)

MNN — Território Livre
07/03/2010, 18:00
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CRUSP = prisão (depoimentos)

Diante da situação limite da precariedade e da repressão no CRUSP, o jornal TERRITÓRIO LIVRE entrevistou alguns moradores do CRUSP na última semana de fevereiro. Publicamos a seguir trechos dos depoimentos, que revelam o cotidiano do CRUSP que a reitoria não divulga e que poucos conhecem. Os nomes dos entrevistados não foram divulgados para evitar qualquer tipo de retaliação.

“Quando você entra aqui, pensa: “Oba! Vou ter uma casa por cinco anos. Obrigada USP, você é minha mãe”, e no final você vê que as coisas não são bem assim, é igual vender a alma pro capeta. Tem um preço, você não vai ter liberdade de expressão, não vai ter liberdade política, você não vai ter liberdade aqui, aqui não é a sua casa.”

A precariedade da moradia

“Fiquei no alojamento, onde entrouxam 9 pessoas dentro de cada quarto, sem ventilação e iluminação, janelinha bem pequena, mofado, úmido, passam canos em cima da cabeça que fazem barulho a noite inteira, até começar a dormir tem que se acostumar. O banheiro é externo, você tem que dividir com mais gente ainda. Enfiam um monte de gente em qualquer buraco.”

A COSEAS e a seleção dos novos moradores

“Por mais que queiram falar que a COSEAS seja pra cuidar desse espaço, na verdade é um órgão repressor mesmo, pra domesticar os alunos.”

“Já fiz três entrevistas e até agora não tenho vaga. E elas perguntam coisa do tipo “Aí, você tem namorado?”. E depois quando você retorna lá elas perguntam: ‘ah. Mas como é que está a sua média? Você gosta do curso? Você costuma freqüentar as festas?”

“Na época da ocupação da reitoria [2007] eu fui lá porque tava rolando o processo [da vaga]. A assistente social perguntou: “Você tá acompanhando o que tá acontecendo na reitoria?”

A vigilância constante e a repressão interna

“O CRUSP é uma prisão. […] A todo momento a portaria controla o nossos passos, se você entra, se você sai, o que você carrega quando entra e quando sai. Por exemplo: se trago amigos o porteiro anota o nome dos meus amigos, hora que sai e hora que entra.”

“A Rosa Godoy escreveu um artigo falando que a vida universitária é promíscua, que o modo de a gente encarar a vida é promíscuo, a nossa sexualidade é promiscua.”

“A gente tem que cumprir 12 créditos no semestre pra continuar aqui, e todo ano quando vamos lá comprovar, se tem algum problema eles já falam: “Ah! Mas porque você não está fazendo os créditos direito? Tá com problema? A gente pode te encaminhar pra um tratamento.” E vai induzindo a coisa. Aliciando as pessoas. É vai ficando um monte de Alex [referência ao filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick].”

“A COSEAS é mais escrota ainda com os hóspedes “irregulares”. Eles expulsam pessoas de madrugada, porque durante o dia as pessoas podem se voltar contra, agora de madrugada a maioria das pessoas está dormindo, algumas não estão nem em casa; costuma acontecer em finais de semana as expulsões de irregulares, finais de semana e de madrugada.”

“Um menino do bloco B quebrou o extintor pra fazer barulho porque outro cara tava sendo expulso. Só que acabou que virou contra ele, o cara foi expulso e ele acabou passando dois dias na delegacia. O cara ficou muito perturbado e aí chegou a ponto do COSEAS começar aquela outra coisa que eles costumam fazer de mandar o cara pra tomar uma… tipo: “Ah, você precisa passar num psicólogo, num psiquiatra…”

“Na época da greve a minha assistente social me chamou pra conversar e perguntou se eu tava gostando ou não que tivesse tendo greve e eu menti, porque eu saquei que eu não ia falar dentro da COSEAS que eu tava adorando que tava tendo greve pelo fato de os estudantes estarem mobilizados e lutando contra aquilo que acho que deve ir contra. Você ir contra uma assistente social é você estar assinando sua cabeça aqui porque você não vai ter onde morar; eles jogam com isso.”

“Domesticar. Domesticar. Domesticar. Eu creio que é pra isso que serve a COSEAS. Bem ou mal os caras não vão querer aqui um foco de gente querendo

A resistência

“Acho que o que deveria ser feito imediatamente é destruir essa COSEAS e construir outra coisa pra organizar e administrar isso daqui. É como diz o Trotsky, não tem como o trabalhador tomar o poder diante das medidas legais, a estrutura legal do Estado burguês. É a mesma coisa pros estudantes, não tem como a gente querer fazer o que a gente realmente acha que se deve com essa COSEAS que tá aí, não adianta querer buscar a solução com a COSEAS, com a reitoria, com o caralho a quatro, porque não vão atender os nossos interesses.

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